
Kiss-in que aconteceu em frente da embaixada da Nigéria em Paris, por ativistas da ACT UP-Paris no dia Internacional contra a Homofobia, 17/05/07 (foto: William Hamon)
“Você participaria de um beijaço gay em plena paulista?” Esta é a pergunta da nova enquete para você responder (na coluna do lado direito), sobre o ato público que deverá ocorrer no próximo domingo, dia 7 de fevereiro. Esse ato, que também terá a participação de heterossexuais, será para responder aos religiosos, preconceituosos e os homofóbicos, que as homopessoas apoiam o 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, PNDH3 (veja no box abaixo).
O beijo gay, na nossa sociedade heteronormalizante, sempre causará frisson. E não precisa ser na telinha global na novela das 8, num reality show, ou então num filme pornô com seus atores desnudos excitados, mas dois homens vestidos no rigor da normatização, de repente se abraçarem e lascarem um beijo em público é de horrorizar qualquer purista heterossexual. Lógico, este cenário é válido também para elas, apesar de que o sexo lésbico já faz parte das fantasias de muitos machistas. Mas uma coisa é ali, limitado pela telinha da TV, encarcerado dentro de um DVD pornô. A outra é ver duas moças beijando em plena área de alimentação de um shopping center.
Então imagine a cena, várias pessoas insuspeitas reunidas numa avenida, de repente começarem a beijar e os desavisados percebem que são homens beijando homens e mulheres beijando outras mulheres, e algumas vezes vão trocando de parceiros entre si e até grupos maiores de três a cinco pessoas beijando entre si. Que horror, que pecado, estão ofendendo ao Senhor, diriam os puristas.
Essas formas de manifestações de beijaço público, como ficaram conhecido no Brasil ou “Kiss-in” lá fora, estão sendo muito utilizadas por grupos ativistas homossexuais para protestar contra algum fato preconceituoso e discriminatório, utilizando-se do beijo gay como arma que sempre vai chocar os preconceituosos, os religiosos e homofóbicos de plantão.
Dois exemplos recentes pelo mundo de Kiss-in, em várias cidades norte-americanas o The Great Nationwide Kiss-in, que aconteceu em 15 de agosto de 2009, e o beijaço sem fronteiras que aconteceu no fim do ano em várias cidades do mundo como Paris, Suíça, Bélgica, Montreal e até no nosso vizinho Peru.
Em São Paulo aconteceu um beijaço coletivo no Shopping Frei Caneca, na Bela Vista, que em 2003 atraiu cerca de 3 mil pessoas, protestando contra discriminação de um casal de namorados que demonstrou carícias em público. O engraçado é que depois desta manifestação, os seguranças e lojistas não mais se opõem, publicamente, contra simples carinhos gays, o local ficou popularmente conhecido como shopping gay ou “gay caneca”, aumentou a frenquência de homossexuais (clientela garantida) e hoje, não só shopping mas a rua virou um espaço “gay friendly”, na qual existe até um movimento para transformar a rua oficialmente como uma “rua gay”.
O beijo gay é um arma poderosa. Quem sabe um dia, com apoio ou não da militância homossexual, poderá acontecer um beijaço gay simultâneo em todas as principais cidades brasileiras? Será um dia pra ficar na história, afinal para o país que tem a maior parada gay do mundo, um beijaço nacional não seria improvável. Ou então, do que um beijaço em rede nacional, uma parada gay que em seu ápce aconteceria um beijaço com mais de 3,5 milhões de pessoas se beijando simultaneamente. Daria para entrar no Guinness Book?
Pois bem, então não se esqueça de responder a enquete, leia o manifesto do beijaço e no domingo que vem às 17h, todos presentes na esquina da Paulista com a Augusta.
Um beijo para todos.
Beijos pelos direitos humanos e para mudar o Brasil
de Augusto Darien Breytenbach Bazárov, com colaboração de Tica Moreno e Zaíra Pires
Um ‘beijaço’ (Kiss in) acontecerá dia 07 de fevereiro na Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta, às 17 horas na cidade de São Paulo. Trata-se de um ato público, organizado por tuiteiros que usam o ciberativismo como ferramenta de mudança social.
Dele, participam mulheres e homens; homo, hétero e bissexuais, travestis e transexuais. Pessoas preocupadas em defender medidas históricas contempladas no 3º Plano de Direitos Humanos, apresentado pela Secretária Nacional de Direitos Humanos do Governo Federal.
Dentre estes direitos estão: a união civil entre pessoas do mesmo sexo, a criminalização da homofobia, a legalização do aborto e a adoção homoparental.
Estas propostas foram duramente atacadas, sobretudo por setores da imprensa e por lideranças religiosas católicas (CNBB).
Em defesa do PNDH3, os participantes do Beijaço querem, por meio de sua afetividade, vir a público expressar seu comprometimento e apoio a implementação destas políticas públicas, e ainda expressar seu repúdio ao ataque vazio e fanático do qual o plano está sendo vítima.
Visto que a laicidade do Estado é garantida em constituição, não há motivo justo que barre a aprovação desse projeto, a não ser o ranço reacionário que atravanca sua aprovação.
O 3º Plano Nacional de Direitos Humanos foi amplamente discutido na Conferência Nacional de Direitos Humanos em 2008.
Ao ser divulgado, entretanto, em dezembro do ano passado, passou a ser criticado e distorcido por setores da sociedade brasileira que querem que sejam públicos os seus interesses privados. Entre estes setores está a direita partidária, a imprensa conservadora e setores reacionários religiosos.
O PNDH3 toca em questões fundamentais para a sociedade brasileira, e busca corrigir distorções graves relativas aos direitos do cidadão brasileiro. As ações propostas pelo Plano colocariam o Brasil lado a lado com países que há tempos respeitam o indivíduo e sua dignidade.
É por isso que, visando justiça, liberdade e igualdade ele recomenda: a descriminalização e a legalização do aborto, bem como sua realização na rede pública de saúde o apoio a uma legislação que garanta igualdade jurídica para os cidadãos LGBT, como a lei que reconhece a união civil entre pessoas do mesmo sexo, recomenda que se assegure um marco jurídico na questão dos conflitos agrários e, por fim, recomenda a instituição de uma comissão para investigar os crimes de tortura perpetrados pelo exército durante a ditadura militar.
O plano também prevê o cumprimento da Constituição quanto ao caráter laico do Estado brasileiro e pede a retirada de ícones religiosos de instituições públicas, para preservar os valores da igualdade na diversidade, alteridade e a valorização da pluralidade. Setores da sociedade brasileira que habitualmente escondem seu conservadorismo em uma retórica politicamente correta foram finalmente evidenciados por seu caráter retrógrado, anti-libertário e preconceituoso.
Por isso, convocamos a todos que, tão indignados como nós com a perseguição ao PNDH3, querem se manifestar de forma pacífica, bem humorada e afetuosa, a comparecer à esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, espaço tão diverso da cidade de São Paulo, no dia 7 de fevereiro, domingo, às 17 horas, para promover um beijaço em favor da liberdade e do respeito a todas as formas de amor e a livre escolha.
A ideia é mostrar, com muita alegria, que as pessoas são diferentes umas das outras, nascem, vivem, se beijam, amam, se relacionam com quem bem entendem, e independente de um ou outro grupo que torce o nariz, sua vida vai continuar acontecendo no anonimato de suas casas. Não adianta um padre, um jornalista ou um senador achar que vai impedir os gays de constituir família, as mulheres de dispor de suas vidas ou o mundo de girar.
Isso acontece, e o PNDH, as militâncias e lutas sociais servem para reconhecer essa existência e garantir que o Estado não negligencie nenhum cidadão ou lhe tire o direito à dignidade.
Foto: “Kiss-In — gay kiss action” de William Hamon em CC