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HIV “desencapado” causa Aids, indica pesquisa com casais gays

fevereiro 12, 2010

Por mais avanços que se tenha feito no estudo da Aids nos últimos 25 anos, pouco se sabe ainda sobre os mecanismos que o vírus HIV usa para se espalhar.

Agora, estudando seis casais homossexuais em que um homem tinha acabado de contaminar o outro, um grupo dos EUA conseguiu ao menos dizer qual parte do sêmen é responsável por transmitir a doença.

O sêmen é um líquido heterogêneo, que carrega desde espermatozoides até células do sistema de defesa do corpo, os glóbulos brancos.

Esse tipo de célula costuma ser atacada pelo HIV, que aloja seus genes no DNA do glóbulo branco –é por isso que a Aids abala a capacidade de defesa do organismo e o portador que não toma remédios fica vulnerável a doenças como a pneumonia.

Seria, então, possível que os glóbulos brancos tivessem um papel na transmissão, mas os cientistas viram que isso não acontece.

Editoria de Arte/Folha Imagem

Editoria de Arte/Folha Imagem

Via fitas

O vírus se propaga, na verdade, como fitas de RNA –molécula-irmã do DNA– que ficam soltas (e que carregam todo o material genético do HIV, com as instruções de que ele precisa para se reproduzir e dominar o hospedeiro), flutuando no sêmen.

Ou seja, o vírus em sua forma completa não tem papel crucial na infecção, explicam os cientistas em estudo na última edição da revista “Science Translational Medicine”.

É possível saber isso porque, como o HIV tem alta taxa de mutação, os vírus flutuantes do sêmen, que estavam separados na vesícula seminal de quem o transmitiu, têm ligeiras diferenças genéticas quando comparados com os dos glóbulos brancos, que estão alojados na corrente sanguínea.

Analisando a diferença na sequência de “letras” químicas do genoma dos vírus presentes nos indivíduos recém infectados dos casais, foi possível saber em qual dos dois lugares eles se originaram.

É o mesmo tipo de trabalho que se faz para saber qual o parentesco entre diferentes pessoas ou espécies.

Saber qual parte do sêmen carrega o vírus torna possível definir um alvo para eventuais medicamentos ou vacinas que evitem a sua transmissão.

Futuro

Ainda é preciso, porém, entender melhor os mecanismos químicos e celulares do contágio por HIV através do sêmen para saber por que isso é assim.

É algo importante, porque, apesar de o vírus também estar presente no sangue, nos líquidos vaginais e no leite materno, é através do sêmen que a maioria das pessoas se contamina.

Outro passo é saber se as descobertas são válidas para qualquer tipo de relação sexual: o estudo atual foi feito apenas com homens gays.

“Não sabemos como é no caso de sexo entre homens e mulheres, tanto vaginal quando anal. Mas é lógico imaginar que as conclusões seriam iguais”, diz Davey Smith, infectologista da Universidade da Califórnia em San Diego e autor do estudo.

O problema que pesquisadores como ele enfrentam é conseguir voluntários para os estudos. “É complicado encontrar parceiros sexuais que tenham acabado de transmitir o HIV e que estejam dispostos a contribuir com a ciência”, diz Smith.

Nota da Redação

A Folha erra ao afirmar que “cientistas descobrem como o HIV é transmitido entre homens homossexuais”. Apesar da pesquisa ter sido realizado apenas com casais gays, a única forma diferente entre o sexo heterossexual com o homossexual é a penetração vaginal. As outras formas de transmissão, oral e anal, continuam os mesmos tanto no sexo hétero como no homossexual.

G1: Ciência começa a abrir caminho para filhos biológicos de casais gays

abril 11, 2009

Imagine um futuro no qual, quando alguém fizer aquele velho comentário de família sobre crianças fofinhas – “Nossa, é a cara do pai!” –, será preciso perguntar “Do pai número um ou do pai número dois?”.

A mera ideia parece coisa de quem tem um parafuso a menos. Mas, ao menos em princípio, não tem nada de impossível. A descoberta de que qualquer célula do nosso corpo tem potencial para retornar a um estado primitivo e versátil pode significar que homens são capazes de produzir óvulos e mulheres têm chance de gerar espermatozoides. Ou seja, casais gays, de ambos os sexos, podem ter filhos biológicos.

Reprogramação

Quem se empolga com essa possibilidade deve agradecer às chamadas células iPS (sigla inglesa de “células-tronco pluripotentes induzidas”), cujas capacidades aparentemente miraculosas estão começando a ser estudadas. Elas são funcionalmente idênticas às células-tronco embrionárias, que compõem o organismo de embriões com poucos dias de vida e conseguem dar origem a todos os tecidos do corpo humano, dos músculos do coração aos neurônios do cérebro.

As células iPS não passam de células adultas (extraídas da pele, por exemplo) que, em laboratório, são revertidas ao estado embrionário por meio de manipulação genética. A coisa funciona porque todas as células do nosso organismo carregam o mesmo conteúdo de DNA, possuindo, portanto, a mesma “receita” genética que dá origem ao corpo inteiro. O processo seria uma mão na roda para produzir tecidos sob medida para transplantes, sem riscos de rejeição (seria; ainda não foi testado para valer). Mas também abre a possibilidade aparentemente impensável mencionada acima.

“Os pesquisadores já conseguiram produzir espermatozoides a partir de células embrionárias. Nada impede que também consigam isso com as células iPS. E, se isso acontecer, o debate ético vai deixar no chinelo o que hoje existe em torno da pesquisa com embriões”, prevê o biólogo Stevens Kastrup Rehen, que estuda as células iPS na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em falta

Em tese, para possibilitar o nascimento de bebês com o DNA de dois pais (ou de duas mães), bastaria obter amostras de células do casal e reprogramá-las para produzir o tipo de célula sexual “em falta” – espermatozoides no caso de mulheres, óvulos no caso de homens. Por causa da ausência do sistema reprodutor feminino, um casal de homossexuais do sexo masculino precisaria de uma mãe de aluguel para gestar seu bebê; já mães lésbicas poderiam decidir qual das duas daria à luz seu filho biológico.

Por incrível que pareça, homens teriam, em tese, chances iguais de gerar filhos de ambos os sexos, enquanto mulheres só poderiam engendrar mulheres. A explicação está nos cromossomos sexuais, estruturas que determinam o sexo em mamíferos como nós. Meninas têm dois cromossomos X, enquanto meninos possuem um X e um Y. Assim, a junção de um X de cada mãe só poderia levar a uma mulher (XX). Uma forma de contornar isso seria inserir artificialmente um cromossomo Y no DNA de uma das mães. “Nesse ponto ainda estamos no campo da ficção científica. Trata-se de algo bem difícil”, diz Rehen.

Além desses detalhes, existe uma importante complicação adicional. É que trechos do DNA das células sexuais ficam marcados quimicamente, indicando quais genes vieram do pai e quais vieram da mãe. Essa marcação é essencial para o desenvolvimento correto do bebê. Segundo Rehen, esse “certificado de origem” desaparece quando a célula original é reprogramada. Não se sabe se um óvulo criado a partir de células masculinas vai continuar com a marcação tipicamente masculina ou ganhará “traços” femininos.

Enquanto os cientistas não aprenderem a controlar isso com precisão, a técnica provavelmente será tão arriscada e ineficiente quanto a clonagem, exigindo centenas de fecundações, bem como gestações de alto risco para a mãe e para o feto. É uma barreira considerável – mas está longe de ser eterna ou insuperável.

Reinaldo José Lopes – do G1, em São Paulo