Oportunismo no “Pré-beijaço contra a homofobia na USP”
maio 6, 2010
A posição do jornal ("O Parasita") é um pouco do que enfrentamos em nosso dia a dia", disse Bárbara Coelho, estudante de letras da USP (na foto, de cabelo curto, ela beija a namorada). (Foto: Emilio Sant'anna/G1)
O evento que aconteceu nesta terça-feira, 4 de maio, um pré-beijaço (kiss-in) como uma convocação do evento marcado para o dia 20 de maio contra a homofobia do jornal “O Parasita”, que incitou alunos da farmácia a jogarem “merdas” em gays para ganhar um convite VIP para uma festa universitária, acabou virando palco para entidades estudantis com palavras de ordens alheias do motivo principal do beijaço.
Muitas palavras de ordens mas pouco debate sobre a homofobia dentro da USP foi o que testemunhou o Augusto Patrini (leia o seu depoimento no box abaixo), estudante da faculdade de História da USP e que está a frente na organização não partidária do beijaço como também esteve no kiss-in que aconteceu na Avenida Paulista a favor do 3° Plano Nacional de Direitos Humanos, PNDH3.
Beijo homossexual mesmo, parece que só ficou para inglês ver, pois as mais de 400 pessoas presentes no evento tiveram que ouvir silenciosas os discursos e as palavras de ordem daqueles que aproveitaram a luz do holofote sobre o palco.
Dia 20 é o dia oficial do kiss-in contra a homofobia de um jornaleco, que além de virtual, não representa a maioria dos estudantes da farmácia e muito menos da USP.
Que para este dia, todos que participaram do pré-beijaço ajudem a multiplicar a participação de mais pessoas indignadas contra o preconceito e discriminação. Que neste dia, haja a participação de todas entidades, estudantis ou não, LGBTs ou não, para discutir e combater a homofobia, que só cresce no Brasil.
O beijo gay é sim uma arma poderosa contra os homofóbicos de plantão, saibam usa-lo bem.
O Augusto Patrini, @Guttto no Twitter, esteve presente no evento e nos fez um testemunho:
“Penso que o evento foi interessante, positivo por marcar posição contra a homofobia. Reuniu entre 400 e 500 alunos. A grande maioria da FFLCH e ECA.
Entretanto aconteceu, ao meu ver, uma atuação oportunista de correntes de ultra esquerda do movimento estudantil (Contulas, PSTU, etc), além de burocracias LGBT (Prisma etc) que usaram o evento para legitimar-se politicamente.
Falou-se muito da greve dos funcionários, e outros problemas na universidade; enquanto a maioria dos estudantes presentes estava lá para protestar contra a homofobia, e não para falar de outras questões. Estudantes não acostumados com o discurso radical do movimento estudantil acabaram sendo desmotivados por esse oportunismo.
Não houve muito espaço para debater a questão entre os vários setores da Universidade. Entre os vários estudantes não integrantes de movimentos políticos ou organizados.
Também não ouve nenhuma menção a iniciativa de estudantes (não organizados) em chamar um beijaço para o dia 20/05 no mesmo gramado da faculdade de farmácia (ex: BEIJOS PARA DESPARASITAR A FARMÁCIA USPIANA) Ainda por cima rolou uma crítica meio velada a proposta de se fazer um beijaço. Como se um beijaço fosse algo despolitizado.
Achei que aconteceu algo que acontece muito no movimento estudantil: algumas correntes políticas tentam de forma antidemocrática enfiar suas metas, discurso, e revindicações goela abaixo de todos estudantes. Estabeleceu-se claramente um hierarquia entre aqueles que falavam detentores de “cargos” no DCE e outras burocracias e os estudantes “normais” que estavam lá para protestar contra a homofobia.
O evento, mesmo tendo marcado posição, não contribuiu para fomentar o debate sobre a homofobia na USP. Pareceu-nos, como fomos nós que tivemos a ideia de chamar um beijaço, que o DCE e o Grupo Prista atribuem-se o papel de únicas vozes legítimas para fomentar e debater a questão da homofobia na Universidade de São Paulo.
O tom agressivo das falas também não deu espaço para que estudantes de farmácia se colocassem, para dizer que nem todos nesta faculdade são homofóbicos. Certamente os estudantes de farmácia que lá estavam sentiram-se acuados pelo tom bastante exaltado da maioria das falas.”
Augusto Patrini
Estudante de mestrado em História Social USP
Leia o texto convocando para o beijaço:
BEIJOS PARA DESPARASITAR A FARMÁCIA USPIANA
O pasquim “O Parasita”, editado pelos estudantes de Farmácia da USP publicou em sua última edição uma promoção polêmica. O texto explicitamente homofóbico, com pretensões satíricas convidava os alunos a jogar fezes em alunos gays que freqüentam o campus. Os editores prometiam em troca “convites” gratuitos para a Festa Brega.
Em um Estado democrático é intolerável que tal comportamento declaradamente homofóbico – e mais ainda -, violento e ameaçador, seja tolerado e encontre eco.
A sociedade não pode ficar refém daqueles que abusam de seu direito à liberdade de expressão ou mesmo de imprensa para atacar covardemente – lembrem-se que o texto foi escrito de forma anônima – uma parcela da população brasileira, seja ela qual for.
Vale lembrar que a Constituição Federal veda o anonimato, assim com a lei condena a homofobia e, acima de tudo, defende a dignidade humana e os direitos humanos A sociedade deve repudiar tais atitudes: a homofobia, a violência e a ameaça.
Um ambiente acadêmico e de alto nível como a USP não pode ser palco para demonstrações preconceituosas e para a perpetuação de lugares-comum e estereótipos preconceituosos e discrepantes ao ambiente e à humanidade.
O respeito e a convivência com semelhanças e diferenças é um princípio básico para a coexistência humana e, o ambiente acadêmico deve ser marcado com este respeito e este convívio para que seja perpetuado e reproduzido.
Longe de aceitar que o assunto seja tratado como mera brincadeira inconsequente ou como algo corriqueiro, a sociedade, e a comunidade uspiana, devem agir de forma decidida, firme e direta, contra este tipo de demonstração incompatível com a vida em sociedade.
Um beijo, contração e distensão muscular, encontro de corpos que só se dá na liberdade. Na farmacopéia da terapêutica da existência, não há receita melhor para combater o parasitismo que gera a discriminação e a homofobia que o exercício democrático da liberdade. Liberdade, que para a jazzista Nina Simone, é não precisar sentir medo do outro. Beijar é, politicamente, o ato mais simples que o desejo pode construir. Ainda mais, se ele unir a liberdade à terapêutica anti-parasitária e à uma profilaxia do existir. Sem frustrações, sem dor, sem medo. Beijar é um ato político, ao mesmo tempo simples e radical. Uma forma de alargar o espaço da liberdade e da democracia.
Nada que os parasitados Parasitas, homofóbicos (com ênfase no fóbicos, pois que o medo que eles cultivam é o pai da violência que os domina), suportem. Ver um beijo livre é a dor suprema para quem teve os lábios selados pelo parasitismo da frustração.
Por isso, e para enfraquecer essa força coercitiva que se insinua como predominante no curso de Farmácia da USP, é que convocamos todas as pessoas livres (ou seja, quem quiser e puder participar), para um beijaço (Kiss IN), no dia 20 de maio, às 18:30 horas, em frente ao prédio da Farmácia/USP[1]
“Tire o seu parasitismo da frente, que eu quero passar com o meu amor”.
Todos aqueles que se sentirão ofendidos pelo texto de ódio, brasileiros ou não, homossexuais ou não, estão convidados para participar desse ato independente de sua orientação sexual.
Texto coletivo: @Guttto @polivocidade @vinnywizard @tsavkko
[1] Av. Prof. Lineu Prestes, 580 São Paulo – SP
Leia na mídia:

















































